• Lara Morais

uma ode à Juçara Marçal


Pablo Saborido/Divulgação


Pode ser que você ainda não conheça a Juçara Marçal, pode ser que seus destinos ainda não tenham se cruzado e que a voz dela, como a de uma sereia, ainda não tenha te conduzido a um mundo com mais beleza, força e a certeza de que essa mulher é uma força da natureza.


Se for seu caso, você chegou na hora certa. Claro, sempre dá tempo de ouvir álbuns antigos, playlists completas e se inteirar do assunto. Mas chegando agora no mundo fantástico de Juçara Marçal, você tem a oportunidade de começar a conhecê-la através de Delta Estácio Blues, disco lançado hoje (30/09), que, devo te adiantar que já mexeu com as minhas estruturas e que já está na lista de favoritos com Lembranças Que Guardei como, a minha, favorita.

Delta Estácio Blues mal começa e já dá pra sentir: lá vem coisa boa. A voz de Juçara aparece praticamente à capela na primeira canção, a “Vi de Relance a Coroa”, e confirma a essa impressão. O disco, segundo de sua carreira solo, vem recheado de Juçara, da cara dela e do que ela faz de melhor: emocionar e mexer com os nossos sentidos. Os primeiros 15 segundos do disco conseguem nos transportar para um show imaginário pós-pandemia e também conseguem resgatar toda a saudade de ver essa mulher ao vivo. Trinta e oito minutos e 11 faixas depois, nosso único desejo é sair de casa numa sexta-feira para assistir ao show de lançamento na Choperia do Sesc Pompeia. Ouça o disco completo:

No Metá Metá, uma das minhas bandas favoritas e que merece um post dedicado, ela faz de sua voz instrumento, junto das cordas de Kiko Dinucci e do naipe de madeiras do Thiago França. Juçara se faz ouvir, num grito ou num sussurro. Ali, como no disco Padê, faz a gente rezar, aprender sobre religiões de matriz africana.

Com Rodrigo Campos e Gui Amabis, faz a gente ir atrás do ensaio sobre o absurdo presente n’O Mito de Sísifo, de um dos escritores mais influentes do século XX e Nobel de Literatura, o francês Albert Camus. Para, assim, a gente entender as referências de Sambas do Absurdo e conseguir acompanhar a história da separação entre indivíduo e a própria vida que vai sendo contada ao longo de uma contagem regressiva de oito faixas e pouco mais de 23 minutos.

Juçara faz a gente chorar. Canta a morte como ninguém em Encarnado, disco de 2014, e como bem descreve Ramiro Zwetsch, em matéria da Ilustrada, Juçara é “uma mulher que canta com sangue nos olhos e faca nos dentes”. Com ela tudo é intenso, tudo é grandioso e, de alguma forma, também é leve. Canta sem fazer esforço, cativa sem fazer esforço, os holofotes se voltam pra ela.

Quanto mais se busca mais se acha. O Spotify, ou sua plataforma preferida, se transforma em mapa, como uma caça ao tesouro. Vai ouvir Assim Tocam os MEUS TAMBORES, do Marcelo D2, tem Juçara em duas faixas. Quer relembrar como foi o Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui, do menino Emicida? Tem Juçara também.


Menina, a lista não para. A parte “Aparece em”, do Spotify, tem uma lista interminável com aparições de Juçara. Se fosse pra destacar, diria para você ouvir Xangô, do disco Ascensão, último da Serena Assumpção (um dos mais bonitos que já ouvi, com o show-homenagem mais emocionante em que já fui), uma das músicas mais ouvidas dela na plataforma.

E quando não pensa que não, lá está a mulher junto de Sun Ra Arkestra, Tulipa Ruiz, Thiago França, Paulo Santos, Thomas Rohrer e Guilherme Granado e Marcos Gerez, no disco Outros Espaço, do Rodrigo Brandão (nome pra ficar de olho porque, vou te dizer, o bagulho é louco).


E não é só isso. Como se “só isso” fosse pouco. É lindo ver a Juçara no palco. A concentração, a entrega. É realmente muito bonito. Imagina, então, se deparar com ela atuando?

É até difícil falar de Gota D’água {Preta} sem me emocionar. *respira*


A peça foi uma adaptação do musical de Chico Buarque e Paulo Pontes, de 1975, feita pelo dramaturgo e ator Jé de Oliveira. O espetáculo, substantivo e adjetivo nesse caso, abordou questões raciais, a solidão da mulher negra, incorporou aspectos da umbanda e do candomblé, além de unir canções do Chico Buarque e faixas da Elza Soares e Racionais MC’s.


E cadê Juçara? Está lá, interpretando Joana, uma mulher que embarca num plano de vingança após ver seu marido largá-la para ficar com a filha do dono do conjunto habitacional no qual eles vivem. Enquanto o bonito vê sua carreira decolar como sambista, os moradores da Vila do Meio-Dia sofrem para pagar o aluguel, cada vez mais caro.


Ali, Juçara mostra outras versões de si. Mas continua fazendo a gente se emocionar (e muito), mostrando sua força, sua potência e, meu Deus do céu, que preciosidade essa peça e todo o elenco!


Eu nem sei como terminar esse texto. Talvez pudesse dizer que queria ser amiga dessa mulher. Também posso dizer que em duas oportunidades a vi na minha frente e não consegui falar com ela. Mas a verdade mesmo é que eu espero, de coração, que você tenha curtido essa jornada e que coloque Juçara Marçal no seu coração, na sua playlist, na sua vida.


Porque vale a pena. Vale muito!


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