• Lara Morais

Tem alguma coisa no som do Amaro Freitas

''Amaro Freitas traz luz sagrada para a escuridão da arte nos novos tempos. Pura esperança!'' - Ed Motta


Eu poderia parar aqui esse review, com esse resumo do que é o som do Amaro descrito pelo Ed Motta, mas tem um detalhe. Talvez seja a maneira que toca as teclas do piano.

Pode ser que seja algo etéreo, que ninguém nunca vai saber explicar com palavras o que é.

Mas tem alguma coisa no som do Amaro Freitas que o torna único. E também torna a experiência em ouvi-lo, única. Ainda que você escute os álbuns Sangue Negro (2016) ou Rasif (2018) repetidas vezes. Ainda que ouça os dois lados dos discos e vire os LPs para ouvir tudo de novo mais uma vez. Cada vez será única, cada nota vai te tocar de uma maneira diferente. Isso tudo fica muito claro quando ouvimos as canções Cais, de Milton Nascimento, e Não Existe Amor em SP, do Criolo, que receberam novos arranjos do pianista para o EP Existe Amor e fazem a gente ter dúvidas se as faixas sempre foram assim ou não.

O jazz e os arranjos que ele faz me remetem ao jazz raiz, dos idos de 1850 nos EUA, cheio de improvisações e suingue, mas também como forma de expressar sentimentos, de por pra fora o que há de bom e de ruim, em forma de música. Infelizmente, demorei para ouvir o som do Amaro Freitas, por mais que minha timeline sempre estivesse com fotos e com chamadas para comprar o vinil de Sangue Negro, mas do momento do play ao ''MEU DEUS QUE É ISSO, PRECISO DESSE VINIL?'', bastaram poucas notas. Porque ele te prende, ele te puxa e te faz ouvir o disco inteiro como se estivesse diante de uma obra-prima, e é bem possível que esteja mesmo.


O Amaro une as tradições da cultura popular nordestina como frevo, baião, coco e maracatu à tradição do jazz norte-americano em sua música, e por isso dá um tom tão único a um gênero tão consolidado. Como ele mesmo diz, faz do piano um tambor de 88 notas e nós entramos nesse batuque como numa roda de samba ou num culto à música.


Tem alguma coisa no som do Amaro Freitas e pode ser a história que seu som carrega, o dobrado que seu pai cortou para pagar a mensalidade de R$30 no Conservatório Pernambucano de Música, quando Amaro tinha 15 anos e era uma GRANA naquela época. Pode ser como mudou sua história por meio da música e como a periferia produz diariamente diversos Amaros Freitas que precisam ser ouvidos e de todo o apoio do mundo.

reprodução


Ouça aqui:

Sangue Negro tem seis faixas e cada uma delas te leva para um lugar diferente. Conta com Amaro Freitas no piano, Jean Elton no baixo acústico, Hugo Medeiros na bateria, Fabinho Costa no trompete e Elíudo Souza no saxofone. O vinil tem produção executiva de Laercio Costa (78 Rotações) e Rafael Cortes (Assustado Discos), masterização de Bruno Giorgi, capa da Bloco Gráfico e foto da capa por Rafael Medeiros. O LP é preto, com capa simples, sem encarte, a tiragem é de 300 cópias e você pode encontrar seu exemplar com a produtora 78 Rotações (@78rotacoes).


E pra você, o que tem no som do Amaro Freitas?

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