• Lara Morais

Nunca duvide da força de uma mulher livre: Lido Pimienta

Um dos grandes objetivos do CEB? é que você encontre aqui a sua próxima banda favorita. O que eu nunca falei é que nessa curadoria inquieta em busca de novos sons e representações culturais das mais variadas partes do mundo, quem acaba se deparando e se viciando em artistas incríveis sou eu mesma.


É esse o caso com a colombiana Lido Pimienta. Meu primeiro contato foi nessa apresentação ABSURDA no Colors (que será tema do próximo post) da faixa Nada, do recém-lançado álbum Miss Colômbia (2020) e ali rolou uma conexão que nem sei explicar, uma paixão instantânea. Será que existe amor ao primeiro acorde?


segura esse refrão:

Todo lo que yo sentí y todo que yo viví (Tudo o que senti e tudo o que vivi)

De todo lo que presentí (De tudo que eu senti)

Ya no me queda nada (Eu não tenho mais nada)

Por todo lo que sufrí, por todo lo que yo aprendí (Por tudo que sofri, por tudo que aprendi)

Por todo lo que te di, ya no me queda nada (Por tudo que eu te dei, não tenho mais nada)


Essa canção traz elementos que vão ser melhor destrinchados no disco como a misoginia, termo que, infelizmente, ela teve de conhecer à fundo com seu ex-marido/produtor. Seu primeiro EP foi todo produzido por ele, que se recusava a ensiná-la o mínimo de produção. Na visão dela, uma forma de mantê-la dependente dele. Se você é mulher, você com certeza já ouviu essa história antes. Mas vocês sabem que o mundo não dá voltas, ele capota, né? Depois de se livrar do embuste, Lido não só escreveu todas as letras do novo disco como assinou todos os arranjos e a gravou o álbum inteiro em seu home studio. Miss Colômbia é um atestado de libertação, é um grito de alívio de só quem viveu num relacionamento assim pode dar.


Até as piores situações das nossas vidas trazem algum tipo de aprendizado. Nunca duvide da força de uma mulher livre.


Cada faixa nos apresenta a uma sonoridade que é, ao mesmo tempo, é regional e universal. Vemos elementos da música andina, cumbia, mas também música eletrônica, e um mix de instrumentos que vão de synths aos inconfundíveis hand drums que dão, propositalmente, um tom afro-colombiano ao disco.


Lido é radicada no Canadá e, diante de um cenário predominantemente branco, ela traz suas origens e críticas ao racismo dentro do disco, como na faixa Pelo Cucu (“cabelo crespo”, em tradução livre) em que uma mãe anseia que a filha se case com um "niño blanco, de pelo bueno… pa mejorar la raza" (um cara branco, de cabelo bom... pra melhorar a raça". Uma referência ao quadro A Redenção de Cam, do espanhol Modesto Brocos, e mostra o processo de branqueamento brasileiro em 1895, sete anos depois da “abolição” da escravatura.

Essa ancestralidade passa também pela nossa própria, ainda que nós brasileiros não nos sintamos parte do povo latino, lá fora muitas vezes somos vistos como um só. A população peruana e boliviana é deixada à margem aqui em São Paulo. No Peru, existe o termo “cholo” a quem se referem de forma pejorativa aos descendentes do povo andino, com traços indígenas e eles próprios confessam que lá não há muita miscigenação por puro preconceito. Nesse contexto nasce a segunda canção do disco, Eso Que Tu Aces, que se refere àquela gafe do apresentador Steve Harvey que acabou coroando a Miss Colômbia erroneamente como Miss Universo, e uma série de comentários racistas e indizíveis foram feitos por imigrantes colombianos ao ator.


O nome do álbum nasce daí. É uma autocoroação, outro símbolo de força e de luta.

Cada faixa vai falar sobre um tema diferente inerente às mulheres ou aos imigrantes ou ao povo latino ou sobre nossas raízes, mas nenhuma delas vai passar batido por você, isso pode ter certeza. Escute esse disco todo, preste atenção em cada faixa e, quem sabe, a Lido ganha vocês como me ganhou?


Posso confirmar a pergunta feita lá em cima. Porque o amor ao primeiro acorde bateu forte aqui <3


* foto da capa por Daniella Murillo

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