• Lara Morais

Novembro Negro - um mergulho em Liniker


Eu escrevo. Essa é a minha arte, o que eu amo fazer, o que faço desde que me conheço por gente. Então, pra mim, não tem nada mais legal do que prestar atenção a cada palavra de composições musicais. Uma por achar que tem música que conversa com a gente, como se tivessem sido feitas para nós. Outra, porque acho que a pessoa que compõe é abençoada, porque além de conseguir traduzir sentimentos em palavras, ela também consegue fazer isso com métrica e rima... Eu tenho profunda admiração.


Então, eu não tenho como vir aqui pra falar de Indigo Borboleta Anil, da Liniker, sem falar também das letras desse disco. O segundo post do Novembro Negro, aqui no CEB?, é um mergulho nesse disco. Não sei se os outros signos têm isso, mas eu sou canceriana, como Liniker, e, só por isso, sinto que somos conectadas. Sinto que quando um canceriano encontra outro, cria-se um laço invisível, que faz com que a gente sinta as mesmas coisas, como se a gente entendesse a forma que a outra vê o mundo. Talvez seja por isso que esse disco me bateu diferente... Muito diferente de Remonta (2016), por exemplo, que me ganha em algumas músicas e me perde em outras. Bateu porque parece uma conversa entre Liniker e... Liniker. De canceriana pra canceriana. Portanto, um mergulho ao universo e à vida da Liniker, que também é um pouco a nossa.


Não à toa, o disco começa com Clau, que além de ser a melhor forma de entrar no íntimo da Liniker, também é, na minha opinião, a sintetização do amor que a gente tem pelos nossos pets. Não tinha música melhor pra isso. "Você diz em 'au au' que me ama" é de uma sensibilidade e "passa pra dentro do meu coração, me ensina um monte de coisa, um montão" é o dia a dia de alguém que tem uma Clau em casa. Sem contar na qualidade da melodia, que também já mostra pra gente que a presença da Orquestra Jazz Sinfônica, regida pelo maestro Ruriá Duprat.

A próxima canção é a Antes de Tudo, é quase um 'olha aqui, meu bem, antes de mais nada, vou te passar meus termos pra gente continuar essa história'. É um encontro dela com ela mesma, que entende quem é, que enfim sabe o que quer e que aceita pessoas que somem à essa história, nunca quem subtraia ou divida. Ela pode até dar o que a pessoa quer, pode até "falar o que você quiser ouvir, posso te acompanhar por onde você for"; ela pode até embarcar nessas histórias, mas as pessoas também precisam saber onde estão entrando, que ninguém vai se diminuir pra caber em lugar pequeno. Não mais.

Eu só não posso mais me ver assim... cada vez mais distante de mim. Eu não quero mais, pouco. Quero voar!

A Orquestra Rumpilezz, sob o comando do saudoso Letieres Leite, entra com força com metais e percussão. E Liniker também realiza um pouco aquele nosso sonho de cantar uma música e fazer o coro ao mesmo tempo.

O disco vai se aprofundando a cada canção. Lili é praticamente uma página de um diário, uma história de si mesma vista de fora, uma narradora contando seus passos. Essa música é de uma Liniker muito mais completa, muito mais segura de si, que encontrou o caminho que tanto buscou e vai seguindo por ele. Mas é também um convite para quem quer se encontrar, um convite pra gente se olhar no espelho e se apaixonar por si mesma, porque ninguém pode e nem vai fazer isso por você. When you take care o,f your heart, when you love your soul, maybe you can find Lili".


Parece difícil, às vezes impossível, talvez tudo o que você precise seja olhar pra dentro de si e dizer todos os dias: "I know (my)her name. I know (my)her age. I’m in love I’m in love with Lili."

Na terapia, cada sessão é um mergulho no íntimo, ainda que a gente volte pros mesmos assuntos, que fale as mesmas coisas, que sonhe as mesmas histórias, cada vez é diferente, com um conhecimento a mais, um empoderamento de si a mais. PSIU é nossa quarta sessão. Afinal, "pra quem não sabia contar gotas, reaprender a nadar" é um passo e tanto. Aqui, ela nos chama pra ouvi-la inteira, nua, pronta e aberta. "Sem ponto, sem vírgula, sem meia, descalça. Descascou o medo pra caber coragem. Sem calma, sem nada, sem ar", tudo em um mergulho interno tão bom que enche de graça. A mais intimista até aqui, e também uma das minhas favoritas, tem Zé Nigro nos synths, baixo forte e grave que praticamente casa e faz par com a voz da cantora.

Eu tenho algumas histórias pessoais com Liniker. Aprendi a ouvir (e amar) Itamar Assumpção por conta de sua versão de Fim de Festa. Também me percebi apaixonada ouvindo NOME DA CANÇÃO em seu show no Cine Joia, em São Paulo, em 2016. Ela faz parte da minha vida. E eu tenho certeza de que Lua de Fé será uma das músicas que vai embalar trilhas sonoras de casais por aí, porque Liniker é cirúrgica nas canções que falam de amor. "Quando te abracei senti que não tava só tu e eu ali, sentia que vinha lá das estrelas como um cometa pra tua mão." Lua de Fé tem tom de contos de fadas, de amores perfeitos, de começos e de meios e de se reapaixonar todos os dias.

Mas Lua de Fé também é uma faixa de esperança, porque "quando se pede o que tá querendo, com os olhos vendo sem projeção" as coisas realmente vêm.

Na quinta sessão da nossa terapia, vem Lalange. É a parte Junguiana e vamos lá interpretar o sonho em que ela volta para a creche em que estudou e tenta se encontrar, sem sucesso. Ao lado de sua mãe e de suas professoras, que a acompanham por todo o processo, Liniker se procura, vê colegas, não se encontra. "Procurei por todas as crianças carecas, por que assim, achei que me encontraria mais rápido." E nada. O sonho acaba.


O processo de se encontrar é demorado. Às vezes, nos encontramos e nos perdemos no mesmo ano. Numa interpretação livre e de alguém que nunca estudou psicologia, me parece que ela procura por uma criança que não existe mais, que fez e faz parte dela, mas que hoje é outra pessoa, de outro jeito. Quantas outras crianças não se perderam no caminho? Quantas ficaram para trás?


A música que sucede a história do sonho é uma homenagem a Mirtes, mãe de Miguel, o "menino que queria voar", mas perdeu a vida por negligência da patroa. A faixa tem participação de peso de Milton Nascimento e conta mais uma história de dor dentro de tantas protagonizadas pelo povo preto, num país em que uma criança não pode ser criança, que não é vista assim. Parece um sonho, mas dói, dói, dói, dói.

Segundo o DataCEB?, Baby 95 é a melhor música pra por assim que se acorda. Nunca como despertador, porque, claro, você conhece essa maldição. Os comentários no YouTube recomendam fortemente e dá pra entender o porquê. Baby começa tranquilinha e vai crescendo, como todas as faixas do disco. Mas, quando não pensa que não, surge um sambão, com direito a metais correndo soltos e é como se fosse uma benção para o dia começar bem.

O maior clichê será dito agora e, por isso, eu peço desculpas. Mas é que Presente realmente foi um presente para nós. Além da canção ser gostosa e ter Curumin na bateria e no MPC (<3), ela foi a faixa escolhida por Liniker pra tocar no Colors, uma das maiores e mais legais sessions desse mundão de Deus. E, assim, você pode fazer uma playlist de duas canções e por na sequência de Baby 95, pode ser até uma benção a mais para um dia incrível.

Se juntas já causa, imagina juntas? Diz Quanto Custa reúne as amigas Tássia Reis, Tulipa Ruiz, Mahmundi e DJ Nyack nos samples. E é muito um encontro das amigas mesmo, daqueles que a gente fala de pessoas que acham que são muita coisa, que pensam que a opinião delas é realmente relevante, mas que, no fundo, nós só estamos pensando: "vai, meu filho, 'diz quanto custa pra sua vitrola parar de girar, diz quanto custa pra sua ousadia acabar'. Eu pago quanto for, vai, fala".

Só consigo imaginar casais arrasando de dançar nos shows, a galera se acabando de sambar, gritando VITÓRIA no momento oportuno. Vitoriosa é o que nós estávamos precisando, é a faixa que oficialmente encerra o disco, mas eu vejo mais como um convite pra gente recuperar nossa alegria de viver, um reencontro da gente com a gente, uma inspiração pra nós sermos felizes de novo! VITÓRIA!

Mel entrou aos 45 do segundo tempo. Uma faixa bônus. Especial para os ouvintes. Voz, violão e coro de Liniker. Só. É sexy, safada, romântica. Mas também poderia ser um reflexo do nosso olhar sobre o disco: "teus olhos na minha cara, parecem me ver bem mais que eu". Pela forma que foi gravada, imperfeita, com comentários dos produtores Gustavo Ruiz e Júlio Fejuca, faz com que nos sintamos dentro do estúdio, das ideias, das possibilidades.

E de forma poética, o disco termina com uma frase que reflete toda a honestidade, a realidade, a entrega e o recomeço de Liniker em Indigo Borboleta Anil: "dei uma desafinada".

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