• Lara Morais

Novembro Negro - A retomada do protagonismo negro na música negra

Cara gente branca, não, eu não vim falar de apropriação cultural. Não é meu intuito discutir aqui se pode ou não pode, se deve ou não deve (se quiser entender um pouco mais sobre o assunto, veja esse vídeo aqui da Nátaly Neri e/ou da Tia Má). Hoje eu vim estrear o Novembro Negro, do CEB?, falando do protagonismo (ou da falta dele) da população negra na música criada por pessoas negras.


Esse post é uma reflexão e também um desabafo.


Há algum tempo, venho me deparando com algumas bandas do gênero afrobeat nas quais poucos ou nenhum integrante era negro e isso vem, de alguma forma, me causando desconforto.


Um ritmo de origem nigeriana, criado pelo mestre Fela Kuti, com maioria não-negra tocando… Essa conta não fecha.


Claro que a cultura africana é uma das mais ricas do mundo, claro vão existir pessoas não-negras que curtem estilos, movimentos, canções de matriz africana ou afro-descendente. Mas como o músico Melvin Santhana, um dos criadores do Bond’Black em São Paulo, bem pontua em entrevista para o CEB?:

“É impossível impedir essas pessoas que elas façam o que elas se sentem bem, as pessoas têm que se sentir felizes, mas outra questão é o entendimento do privilégio, do entendimento do protagonismo negro que por muito tempo foi invisibilizado e essas pessoas que não são negras precisam entender esse lugar de que a partir do momento que você lida com uma cultura, é preciso dar os créditos e é preciso ter o entendimento do privilégio. Ter o entendimento do privilégio é você protagonizar e entender a importância do protagonismo de quem de fato cria”.

A seguir, selecionei músicos, bandas e coletivos que resgatam sua ancestralidade através de ritmos que seus antepassados criaram!


na Inglaterra

O primeiro quentinho no coração veio quando descobri a banda Kokoroko Afrobeat Collective — um grupo inglês formado totalmente por mulheres e homens negres. Primeiro que, assim, mulheres negras tocando afrobeat. Só posso olhar e gritar: RAINHAS. Depois que, o grupo é liderado pela trompetista Sheila Maurice-Grey <3 <3 <3


Terceiro que as referências da Kokoroko vêm da África Ocidental, de gente como o já citado Fela Kuti, do guitarrista ganês Ebo Taylor (uma lenda viva) e do baterista nigeriano Tony Allen, que foi um dos principais co-criadores do Afrobeat, gênero que Kokoroko se apropria.

Em Urrobo, língua falada nos Estados nigerianos de Delta e Edo, "Kokoroko" significa “seja forte”. Eu me pergunto o que é ser forte senão um grupo de jovens negros vivendo em Londres, ou em São Paulo, ou em New York, ou em qualquer lugar. O que tem mais força do que um grupo de jovens que honra suas raízes, que sabem quem é, que tem orgulho do que se é?


Kokoroko é Sheila Maurice-Grey (trompete e vocais), Cassie Kinoshi (saxofone e vocais), Richie Seivwright (trombone e vocais), Yohan Kebede (teclados), Duane Atherley (baixo), Tobi Adenaike (guitarra), Onome Edgeworth (percussão) e Ayo Salawu (bateria).


na Gâmbia


Outra artista que me arrancou um susupiro e que segue a linha de pensamento desse post, mas por um lado ainda mais profundo, é a gambiana Sona Jobarteh — pela qual eu sou completamente apaixonada.


Por essa você não esperava, hein? Música da Gâmbia?


A Sona é natural de Banjul, capital do país, e, para que vocês entendam o porquê de tanto amor, ela tem essa voz aqui:

Sona é de uma das famílias de músicos griô — termo que define indivíduos que detém a memória de um grupo ou comunidade e funciona como difusor de tradições através da oralidade — mais tradicionais da Gâmbia. No entanto, ela é a primeira virtuose de Kora, harpa-alaúde de 21-cordas amplamente utilizado por povos na África ocidental, a vir de qualquer uma das dinastias Griot da África Ocidental. <3


Toda força e protagonismo Sona nos fez refletir sobre tudo que os negros no Brasil e no mundo poderiam ter sido e não foram. Quem teve suas vidas interrompidas pela escravidão. Reis e rainhas que foram tirados de suas terras à força. Quantas famílias como a de Sona poderiam ter sido o que quisessem e não foram?



aqui no Brasil

Chegando aqui no Brasil, a falta de protagonismo negro é gritante nos principais ritmos de matriz afro-diaspórica. No vídeo compartilhado no começo desse texto, a Tia Má pontua super bem:

“O axé music vem do Candomblé. É música feita por preto e que, de repente, torna-se um grande sucesso. Eu quero que você se lembre de pelo menos cinco nomes da música baiana que são pessoas negras”.

Com isso em mente, pensei no Coletivo IMuNe - Instante da Música Negra que vem para fortalecer, aquilombar e transformar essa realidade. Criado por sete artistas negros, o IMuNe é um lugar de descoberta, de incentivo a artistas, de encontro e reencontro dos nossos com os nossos. Um lugar de liberdade, de expressão e que te lembra o tempo todo o quanto você pode ser exatamente o que quiser ser.


Em 2017, o ImuNe me proporcionou lembranças que eu jamais vou esquecer. Ocuparam o Aparelha Luzia, um quilombo urbano liderado pela, agora deputada estadual, Erica Malunguinho, em um mini-festival-festa-celebração da música negra. Foram apenas três dias, mas pude ver de perto a alegria da negrada reunida. Um dos momentos mais inesquecíveis foi Rodrigo Negão interpretando a canção Centenas de Povos Pretos, que levou aquele lugar abaixo com um rock’n roll pesado e todos cantando e dançando juntos.


De lá pra cá, muita coisa aconteceu e o reconhecimento veio. Foram selecionados pelo edital da Natura Musical (2019), participaram da Semana Internacional de Música (2019). No ano passado, no meio do caos, o coletivo produziu e protagonizou o ImuNe Experience, um festival incrível que promoveu debates virtuais com profissionais da música, intelectuais e ativistas da causa negra e culminou em uma das melhores lives do ano, cheio de nome pesado, como Elza Soares, Djonga e Flávio Renegado e, claro, o próprio coletivo, então formado por Maíra Baldaia, Raphael Sales, Gui Ventura, Cleópatra, Rodrigo Negão e Bia Nogueira, eleita a Profissional do Ano 2020 no Prêmio SIM-SP e Curadora do Natura Musical 2021. Esse rolê me deixou pessoalmente abalada e emocionada, uma por conhecer essa galera de perto e outra por ter a certeza de que tudo ainda é pouco porque eles vão além de talento, eles são potência negra em erupção.


Sim, eu sei, toda hora é hora de enaltecer a cultura negra e a gente tem mesmo que ocupar todos os espaços. É justamente por isso que a gente retoma, pela centésima e em definitivo, nossas atividades com o Novembro Negro aqui no CEB?. Um mês focado e voltado pra pessoas negras, para arte negra, que é a base de tudo.


Afinal, se música liberta, não existe forma melhor e mais completa de expressar sentimentos de amor, de raiva, de resistência, de luta ou de força, que não seja através da arte. É na música que todes esses artistas encontram o caminho perfeito para combater, lutar, resistir e perpetuar uma cultura tão rica e tão bonita quanto a de origem africana! ✊🏽✊🏾✊🏿



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