• Lara Morais

Esse é sobre a potência negra na voz da Tuyo

"Quando um preto canta sentimento, a gente se desachata." Não teria como começar a falar da Tuyo sem citar a Lio no show no Aparelha Luzia quando ainda era normal e seguro juntar pessoas para ouvir um som ao vivo. É que nós vemos tanto a negrada cantando sobre as mazelas de ser negro nesse país, que mata um de nós a cada 23 minutos, sempre com muita dor (com razão), muita raiva (com muita razão), que parece que os nossos não podem falar de outras coisas, não podem ser convidados para falar sobre um assunto diferente do racismo, tipo economia, política, até mesmo cultura. E aí chega a Tuyo pra estender as mãos para nós e nos mostrar um caminho diferente.


A gente foi criado pensando que temos que aguentar tudo sozinhos (de preferência calados). Nossos pais e avós nem se fala. Temos que aguentar, temos que ser melhores, temos que nos esforçar mais. De repente, a gente só quer viver em paz, mas tem sempre um mas que faz com que a gente se diminua e realmente acredite que temos que aguentar tudo e, pior, temos que guardar tudo pra nós. Mas quando a Tuyo, composta por um trio negro, vem e faz a gente lavar a alma ouvindo um EP que já anuncia no nome que veio "Pra Doer", a gente se desachata. No ano seguinte, quando acalmam nosso coração com canções que não são necessariamente felizes, mas que são 100% sinceras, com o disco que vem "Pra Curar", a gente se desachata. Afinal, como a Lay bem descreve "não tem nenhum processo curativo que não vá doer, não vá coçar, sabe? você vai sentir...".


A gente vem se desachatando ouvindo sobre sentimento, a gente vem gritando desde então. Porque agora sabemos (ou externalizamos) que podemos ser de tudo um pouco, inclusive versões nossas que não existem, só para agradar outra pessoa, mas que dependendo da história nada que façamos vai fazer com que o outro nos olhe ou se apaixone por nós. Mas nessa também aprendemos, depois de ouvir Solamento no talo e cantar até perder a voz, que a pessoa mais importante das nossas vidas somos nós mesmas e que o fim da canção tem que ser cantado batendo mão no peito.

(mas ok, também não acho justo a vida nos ensinar de um jeito tão cruel, como se fosse só assim pra gente entender que não era pra rolar rs... quem nunca, né?)


Ou aos berros, aos prantos, botamos tudo de ruim para fora, e assim vamos nos remontando, pedaço por pedaço, depois de termos sido estilhaçados. Porque, vamos combinar, se você não canta Terminal com toda sua voz e lembra de histórias que ficaram para trás, você é privilegiada sim.


Agora, três anos depois de colocarem as mãos nos nossos ombros e dizerem que tá tudo bem chorar, que não precisamos aguentar tudo e que ninguém é feito de rocha, esses três chegam com o novíssimo Sem Mentir, e fazem a gente desabar novamente. Numa primeira audição, o diálogo me pareceu entre duas pessoas, mas ao assistir ao videoclipe e com uma escuta mais ativa e atenda, entendo que as duas pessoas fazem parte do mesmo ser, em épocas diferentes, ou em evoluções diferentes. Sabe quando você se machucou muito e acha que o melhor caminho para a autopreservação é se fechar para o novo? Quando você se tranca a sete chaves, pois já pegou caquinho por caquinho da porta do seu coração que foi arrombada e a já a remontou aos poucos, como um quebra-cabeças, sem querer abri-la novamente? Então, Sem Mentir é seu eu batendo do lado de fora e te chamando pra viver a vida e dizendo que quem não fica vulnerável também se decepciona.


Mas você que escolhe de que lado quer ficar.

Abre a porta, deixa ir, deixa entrar. E se tiver que reformá-la de novo, tá tudo bem, porque agora você já sabe como fazer. Você já sabe como se desachatar pra começar de novo.

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