• Lara Morais

CARTA ABERTA AOS SHOWS QUE NÃO FUI



Caro show,


Como você deve saber, são tempos difíceis para os sonhadores. E se você assistiu à Amelie Poulain em algum momento da vida, sabe como essa frase fica ecoando dentro da gente.


Uma vida atrás, nos longínquos anos sem pandemia, também existiam tempos difíceis. Talvez não tão na cara como esses (que, porra...), talvez com um pouco mais de respiro entre um período e outro. Eles estavam lá, sempre estiveram.


Naqueles tempos, por mais duro que fossem, você existia. Você estava lá. E nos dava o respiro que hoje nos falta. Tirava o peso das nossas costas que hoje nos esmaga.

Toda semana, de segunda a segunda, era você que fazia com que as nossas emoções transbordassem.


Às vezes, virava lágrima como no lançamento de Ascensão, disco póstumo de Serena Assumpção no Pompeia ou quando a Elza Soares cantou o primeiro verso de A Mulher do Fim do Mundo no Sesc Pinheiros.



Outras vezes, virava riso como no show da Letrux no CCSP. Você se trasnformou em alegria, em dança e em suor na apresentação de Felipe Cordeiro e Pepeu Gomes, na Choperia do Pompeia (ai, que saudades do Sesc Pompeia) ou no Grand Bazaar na Casa de Francisca.

Você era o nosso grito, hoje preso na garganta. Era Metá Metá no Sesc Belenzinho.

Era vício. Curumin no Sarajevo, no Studio SP, no Sesc Pompeia, no Belenzinho, na Virada Cultural.


Era arte. Rabequeiro Maneta e a Fúria da Natureza na Casa de Francisca.


Era date. Bárbara Eugênia na Casa do Mancha. Projeto Nave no Sesc Vila Mariana. Orquestra Voadora no Belenzinho.


Você era inesquecível, era união, era reunião. Thiago Petit e No Hay Banda tocando David Linch no Sesc Vila Mariana. Mama Feet no Solar de Botafogo. Mahmundi lançando Para Dias Ruins. Céu tocando Tropix na Choperia.


Você era palco. Não só de shows.

Era palco da nossa terapia.

Da nossa sessão de descarrego.

Da nossa recarga de energia.

Do nosso flerte.


Você era nossa rotina, nosso mantra. Você era nosso F5 para comprar ingresso antes que esgotasse. Era o vinho antes da música rolar, era a cerveja no bar do lado depois do BIS.


Você era a corrida para o metrô perto da meia-noite.


Você é tudo. E, por isso, agora esse nada. Esse vazio. Principalmente esse silêncio. Quando isso tudo acabar e nós, finalmente, pudermos nos reencontrar, será mágico. Será lágrima e riso e suor e dança. Será você. Seremos nós. E a gente vai se “abraçar com força descomunal até que os braços queiram arrebentar toda defesa que hoje possa existir e, por acaso, queira nos afastar”.


Com amor e saudades,


O público







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